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Os relatos da bola

por Marquês, em 23.10.12
No outro dia, sintetizei uma rádio regional, para ouvir um relato de bola, e tive saudades dos meus tempos de rádio. Sempre ouvi falar no "bichinho da rádio" e o sacana existe mesmo. O relato que estava a ouvir fazia-me doer o coração, de mau que era, contudo, fez-me pensar na minha juventude, na altura em que eu falava para umas poucas dezenas de pessoas do outro lado dos cabos e computadores que alimentavam a emissão. Adorava aquilo.

É verdade, a minha primeira experiência pseudo-profissional foi no jornalismo. Vendo bem, já foi esse o meu sonho. Penetrando no mundo do jornalismo regional aos 16, numa editora que tinha um quinzenário e uma estação de rádio, aos poucos fui ficando apaixonado por aquilo. Entrei pelo jornalismo escrito mas em três meses surgiu o convite para a rádio - um relato de um jogo de futebol em directo. Abalei à aventura. Condições: um telemóvel para onde o meu colega iria ligar e eu entrava em directo na emissão, pouca rede para garantir a qualidade de som, um caderno para apontamentos, uma caneta (vale a pena explicar para quê?). Duas equipas desconhecidas para mim, um campo de futebol de terra batida no meio de um monte, ausência de cadeiras e um vento horrível. Lá fui eu, às cegas, à procura da ficha de jogo. Pobre inocência, só havia uma folha com o nome dos jogadores - a do árbitro. Lá inquiri uns dirigentes e consegui construir a minha ficha de jogo. A meu favor tinha os conhecimentos básicos de um amante de futebol e a "pespinetice". O telemóvel toca, lá andava eu a tentar escrever o nome dos jogadores segurando o caderno numa mão e a caneta na outra, atendi, estava na hora, ia entrar em directo. Nervoso miudinho e... silêncio, a emissão era minha, ia atirando as palavras cá para fora com um toque à Gabriel Alves, uma gíria futebolística aqui, uma informação pertinente acolá, o vento insistia em virar a página enquanto tentava ditar o alinhamento das equipas. Em menos de dois minutos já os conhecia todos, do guarda-redes ao ponta-de-lança. Quem estivesse a ouvir julgava que eu acompanhava aquelas equipas há vários anos. A partida terminou com 0-2 no marcador. "Lá vai a equipa da casa a tentar sair para o ataque, Celso, o capitão, joga de cabeça levantada, procura meter a bola num companheiro mas é desarmado, pode ser um contra-ataque perigoso. Zé tem Chico a desmarcar-se pela direita e apressa-se a colocar lá a bola. Chico domina de calcanhar e tira um adversário do caminho, que lance magnífico, pode cruzar, mas não, entra na grande área e vai tentar o remate... contra as pernas de um defesa mas o lance ainda mexe, que grande confusão na área e é golo, é golo, é GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOOO... Mas que grande atrapalhação. É o 0-1 no marcador. Contra-ataque rapidíssimo, só podia terminar no fundo das redes". (Os nomes não correspondem à realidade) Relatei dois golos em directo. Uma jogada atabalhoada com um pontapé de ressaca (sem sala de imprensa tentei colocar-me num local abrigado do vento e nem consegui ver quem tinha marcado) e um penálti, que gritei como se não houvesse amanhã. Hoje penso que talvez tenha exagerado no grito mas estava com fezada, aquela bola ia entrar e eu ia fazer a festa do golo! "Eriton prepara-se para a cobrança da grande penalidade, pode fazer o 2-0, olha para a bola, respira fundo e ataca a redondinha... GOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOLOOOOOOOOOOOOOOOO! EEEEEERIIIIITOOOOON a fazer o segundo da partida. Bola para a direita, guarda-redes para a esquerda e a meia dúzia de adeptos da equipa forasteira fazem a festa em Boliqueime".

Antes dos 17 anos já era apresentador, repórter, jornalista, editor, coordenador e técnico de um programa de rádio e de uma secção num jornal. Fui crescendo lá dentro. Confiavam em mim. Dominava a mesa de mistura e os programas de edição com facilidade. Controlava a emissão tão bem como os meus colegas, com cursos e experiência, bons profissionais. Em quase quatro anos de rádio, raramente baixei os braços. Faltavam apoios financeiros, faltavam recursos humanos, mas lá estava eu, pronto a levar a emissão até aos ouvintes. Poucos, muitos, não importava, eram os meus ouvintes, o meu programa, não os ia deixar ficar mal. Aprendi muito comigo mesmo e só cometia os erros uma vez. Perfeccionismo, responsabilidade q.b., perserverança, gosto e vontade de me sentir orgulhoso do que fazia. Vou fechar os olhos um bocadinho e deixar que a nostalgia tome conta de mim...

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