Saltar para: Posts [1], Pesquisa e Arquivos [2]


Cornetto, estás a testar-me

por Marquês, em 05.08.15

Vem o calor, é a correria às arcas de gelados dos supermercados e os anúncios de raparigas jeitosas em biquini a lambuzarem-se com as novidades das marcas.

 

Este ano estou a ficar farto dos Cornettos e ainda não comi nenhum nem tenciono fazê-lo tão cedo.

 

Sou um rapaz que consome muita música e vá, vídeos, no Youtube e ando sempre a gramar com aquelas publicidades chatas. Nomeadamente, ando a levar com o David Carreira em tronco nú de 4 em 4 músicas.

 

Não Cornetto, não estou interessado nem no David nem no Cornetto. Sou fã dos clássicos.

 

Rol e Perna de Pau rullez!

Autoria e outros dados (tags, etc)

O final do Verão

por Marquês, em 20.09.12


Lá andava o rapaz a correr e a pular atrás do avô. Às vezes ajudava, com as mãos pequenas e um minúsculo sacho. Fazia festas na terra mas para ele era como se estivesse a cavar metade da horta com cada cavadela. Outras vezes, na sua maioria, claro está, só incomodava. Tropeçava no próprio chão e, volta e meia, lá ia o joelho contra uma pedra e as pobres calças, já remendadas, teriam de passar novamente pelas mãos habilidosas da avó.

O final do Verão era marcado, todos os anos, pela mesma imagem. Vendo bem, é das melhores e mais presentes recordações que lhe restam.

Acordava, com o Sol já forte, apesar de pouco passarem das oito da manhã. Espreitava pela janela do seu quarto e lá ia o burro, com um velhote às costas e umas cestas. Nas cestas ia o trabalho do ano, ou pelo menos uma parte, em direcção à vila onde esperava arrecadar umas moedas e trocar o resto por sementes. O produto da horta alimentava a casa mas só estas visitas à vila podiam pagar o gasóleo do tractor ou os medicamentos para as dores do corpo, pobre coluna sempre a queixar-se e um andar coxo ao qual se tinha habituado ainda em boa idade, eram o suficiente para acompanhar o pão com doce pela manhã. Uma chávena de café, uma fatia do pão amassado pela esposa, um bocado de doce de tomate ou de compota, consoante a sorte, e dois comprimidos que um médico, na altura português, lhe receitou para poder trabalhar mais uns anos. Passava-se a semana e todos os dias a mesa era posta para um a mais. À hora da ceia todos olhavam para o canto da mesa, ainda órfão do patriarca da família. Do seu lado a velhota suspirava e ansiava pelo seu regresso. E que desta vez trouxesse alguma surpresa ou boas novas da vila. Por vezes ficava a saber que um amigo de infância tinha falecido ou que o filho do Zé do talho estava emigrado para França ou que o filho do carteiro Manuel tinha casado com uma moça da cidade e se tinha ido embora. A malta jovem queria ir embora, recusavam pegar na enxada. Que futuro dava uma leira de batatas ou uma fileira de macieiras? Estava na moda ir para o estrangeiro ou fugir para as cidades. Dava dinheiro trabalhar num escritório pequeno sem ver a luz do dia, preencher papéis, estudar até não poder mais. Ou então ir para a hotelaria. Muitos diziam fazer lá bom dinheiro. Mas o pequeno rapaz todos os dias esperava junto ao caminho com o seu sacho na mão. “Ainda não é hoje que o avô chega”, pensava ele quando o Sol desaparecia no horizonte. Até que chegava o dia. Ao longe, normalmente pelo final da tarde, surgia uma silhueta ao fundo da estrada. Estrada de terra, trânsito inexistente. Lá vinha o homem com um pau às costas, uma cesta na ponta do pau e um par de botas ao pescoço, novas, na mão trazia um cacho de bananas. Ao entrar em casa piscava o olho ao pequeno, escondia as bananas e dava um beijo na esposa. Mas a resposta não se fazia esperar, “Pronto, vendeste o burro e agora quem vai lavrar a terra? E para que precisas das botas? Ainda o ano passado compraste umas novas! Meu Deus, que vai ser de nós agora sem o animal. Conseguiste ao menos comprar sementes?”. Era então que puxava das bananas. Ali na vizinhança não havia bananas, e ele gostava, e a esposa ainda gostava mais. A discussão acabava logo, na semana seguinte já tinham novo burro, comprado por metade do preço a um amigo ali de perto.

A vida continuava. E, inevitavelmente, o final do Verão era anunciado pela viagem do burro a caminho da vila. Na chegada, durante anos assim foi, lá vinha o velhote com um pau às costas, um par de botas novas ao pescoço e um cacho de bananas na mão.

Autoria e outros dados (tags, etc)


O responsável

foto do autor



Arquivo

  1. 2021
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2020
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2019
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2018
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2017
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2016
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2015
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2014
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2013
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2012
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D